O caso J&F e a anatomia da corrupção sistêmica no Brasil
Movimento Reforma Brasil
Há uma diferença fundamental entre o empresário que enriquece criando valor e o que enriquece capturando o Estado. O primeiro compete. O segundo compra. No Brasil de Lula, o caso dos irmãos Joesley e Wesley Batista, do grupo J&F, é o retrato mais acabado dessa segunda categoria — e o silêncio do governo sobre os fatos é tão revelador quanto os próprios fatos.
Vamos aos números, porque os números não mentem.
Em março de 2026, o governo federal realizou o maior leilão de reserva de capacidade energética da história recente do país: 19,5 gigawatts contratados, a maior parte de combustíveis fósseis — gás, carvão, diesel, óleo combustível. O mesmo governo que se apresenta ao mundo como paladino da transição energética e da sustentabilidade climática. Mas isso é detalhe.
O que não é detalhe é o seguinte: a Âmbar Energia, braço do grupo J&F, está prestes a receber um contrato de R$ 12 bilhões até 2040 para fornecimento de energia a carvão mineral proveniente da usina de Candiota, no Rio Grande do Sul. O preço fixado é de R$ 540,27 por megawatt-hora — 50% acima da média de mercado. Cinquenta por cento. Pago pelo consumidor brasileiro, repassado na conta de luz.
E como isso foi possível? Por meio de um ‘jabuti’ — aquele dispositivo inserido sorrateiramente numa medida provisória no Congresso — que tornou a contratação obrigatória para usinas com contratos vigentes em dezembro de 2022. A lei não cita nomes. Não precisa. A regra foi costurada sob medida.
Mas a história não para aí. Enquanto o contrato bilionário era negociado no Brasil, Joesley Batista estava em Caracas. Em dezembro de 2024, ele se reuniu pessoalmente com Nicolás Maduro para, segundo consta, pedir uma ‘transição pacífica’. Um empresário privado, sem mandato, sem cargo, intermediando a política externa do Brasil com uma ditadura — exatamente no momento em que o grupo J&F detinha, desde 2024, direitos de exploração de petróleo venezuelano por 25 anos, por meio de empresa parceira.
A pergunta que o governo não quer responder é simples: quem ele estava representando em Caracas?
O próprio presidente Lula deu a resposta indiretamente: no mesmo período, indicou Joesley Batista para negociar com o governo Trump a redução de tarifas comerciais. O mesmo homem. O mesmo grupo. Interlocutor de Maduro e de Trump. Representante oficioso do Brasil em duas frentes geopolíticas opostas — com interesses econômicos próprios nas duas.
E quando jornalistas solicitaram ao Itamaraty acesso aos telegramas diplomáticos que documentam as reuniões dos Batista com o regime de Maduro? O governo impôs sigilo de cinco anos. Sem explicação pública. Sem prestação de contas. Sem sequer revelar quem participou das audiências.
Isso tem nome: é a captura do Estado por interesses privados. Não é desvio. Não é exceção. É sistema.
O grupo J&F construiu sua fortuna com contratos públicos, propinas documentadas — confessadas pelos próprios irmãos na delação premiada que abalou o país em 2017 —, acordos bilionários com a ditadura venezuelana durante a escassez de alimentos, e agora retorna ao centro do poder com contratos de energia acima do mercado, petróleo em país sob sanções internacionais e papel de intermediário diplomático não oficial.
A JBS, em seu auge, chegou a fechar um contrato de US$ 2,1 bilhões com o governo Maduro para fornecer carne e frango ao povo venezuelano em colapso. O regime pagava. A empresa entregava. Perguntas sobre a natureza desse arranjo permaneceram sem resposta.
O Movimento Reforma Brasil denuncia esse padrão não apenas como escândalo, mas como sintoma. O que estamos vendo é a demonstração prática do que ocorre quando um Estado perde suas fronteiras éticas: o poder público torna-se instrumento de enriquecimento privado, a diplomacia vira extensão de interesses empresariais, e o sigilo substitui a transparência que a democracia exige.
Reformar o Brasil significa, antes de qualquer coisa, romper com esse ciclo. Significa exigir transparência sobre quem negocia em nome do país e por quê. Significa auditar contratos firmados 50% acima do mercado. Significa perguntar, alto e sem constrangimento: a quem serve este governo?
As respostas — quando aparecem — constam nos telegramas sigilosos do Itamaraty.
Movimento Reforma Brasil — Abril de 2026






